Ponto e Vírgula
26 de outubro de 2018

Democracia é o que nos resta

Diz o dito popular: o que seria do azul se todos só gostassem do vermelho? Em tempos críticos, a democracia torna-se ainda mais importante do que já é. Ela é o que temos de melhor. Não dá para fazer de conta que ela seja apenas uma palavra largada ao vento. Doce na boca de criança. Democracia é o que nós temos de mais importante.
Porém, muita gente parece não saber o que fazer com ela. Princípio básico da democracia é respeitar os mais diversos pontos de vista. Ainda que esses sejam completamente diferentes do que você pensa ou acredita. É a famosa frase atribuída ao filósofo Voltaire: "Ainda que não concorde com nenhuma palavra que você fale, defenderei até a morte o seu direito de dizê-la". Em tempos de redes sociais, ampliou-se esse direito. Todo mundo escreve, compartilha e curte o que pensa. No entanto, muitos são rechaçados publicamente porque discordam. E isso é grave. Em Ribeirão das Neves (MG), um casal foi agredido a tesouradas após uma discordância política. Em Salvador, o ativista social e mestre de capoeira, Moa do Katendê, também morreu esfaqueado após divergir sobre política com um homem. Total desrespeito e extrema intolerância contra pensamentos divergentes. Estamos no tempo de mandar matar quem defende o aborto e decapitar quem é contra. Tempos de mandar fuzilar quem defende a liberação das drogas e de degolar quem é contrário. Em todos os lados, está faltando aceitar outros pontos de vista e abrir os ouvidos para as opiniões diferentes.
Parafraseando Churchil, ainda não inventaram nada melhor que a democracia. Ainda que ela seja repleta de imperfeições. A liberdade de expressão é cara e especial e não pode ser abominada e nem ser motivo de violência. A intolerância mata. Não se pode agredir quem pensa ou age diferente daquilo que se acredita. Afinal, quem disse mesmo que apenas um ponto de vista está certo? O conservadorismo saiu do armário. Porém, a censura e a imposição de bom exemplo, são válidas apenas para o outro. É muito fácil apontar dedos, julgar e criticar. Enquanto não fazemos nosso exame de consciência. É a história do cara que cobra comportamento exemplar de todos, mas fura fila, joga lixo no chão, ultrapassa pela direita e oferece propina. Ou o outro que se julga acima do bem e do mal, mas trata mal a esposa, os filhos, não devolve troco errado no supermercado, não respeita vagas de deficiente e é grosseiro com quem o interpela. Sinceramente, não me lembro de ver tanta hipocrisia e incoerência. Mas voltando à democracia, ela precisa ser valorizada, estar acima das nossas convicções e, apesar de sua fragilidade, deve ser respeitada e permanecer intocada. Em tempos de intolerância, de violência, de desrespeito, vindos de todos os lados, a democracia ainda é o que nos resta e o que nos pode salvar.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação