Cotidiano
26 de outubro de 2018

Mãe de Manual

Descobri que sou mãe de manual. E isso me assustou muito. Tenho os melhores conselhos, variadas receitas, diversos rituais, mas não consigo praticá-los. Descobri que sou mãe de manual em um momento de raiva, de falta de paciência, de falta de controle. Vi meu filho acuado, chorando, e com os olhos amedrontados. Naquele momento, tive vergonha da mãe que me tornei.
Mas a maternidade não vem com manual. Não conseguimos prever nossas reações, muito menos as reações dos nossos filhos. Nem sempre eles serão como prevíamos e nós nunca mais seremos como antes. A avó terá sempre um bom conselho, a sogra um novo método, as amigas nos dividem suas experiências, mas na prática, as coisas podem sair do controle.
Descobri que não sigo meu próprio manual, no momento que conheci uma mãe que eu não gostaria, dentro de mim, nos meus atos e nos meus exemplos. Apesar do susto, essa descoberta foi crucial para que me libertasse de todos os padrões que tentava aplicar, na maternidade, e recomeçasse a trilhar novos caminhos, em minha relação com o meu filho.
Quando éramos crianças, e apenas filhos, nossos pais nos criaram num outro modelo de educação, porque a época era outra, a geração era outra, as necessidades eram outras e os desafios também. Como pais, não conseguiremos seguir a mesma cartilha, o contexto é outro.
Os filhos que nos chegam são quase “tecnológicos”. Pensam com mais agilidade, andam mais rápido, falam mais cedo e nos questionam antes mesmo de aprenderem a pronunciar frases inteiras. Antes de irem para a escola, já conhecem cores e números, músicas e coreografias, que aprendem nos desenhos e nos infinitos aplicativos infantis. Hoje, as babás eletrônicas foram trocadas pela TV, tablete ou celular, onde as crianças ficam encantadas, anestesiadas e são nutridas de desejos e compulsões de consumo.
A maternidade me chegou como um sopro, forte e rápido, e me mostrou que as coisas nem sempre estarão sobre o meu controle. Por maior que seja o meu esforço, minha dedicação e o meu amor, as vezes não vou me reconhecer em algumas situações.
O amor de mãe nasce enraizado com a culpa e a cobrança, que nos acompanham a cada fase dos nossos filhos, e crescem junto com eles. Muitas vezes, nos deparamos com questionamentos improváveis e despertamos: “Como ele cresceu”. O tempo passa, voa, corre mais do que nos parece e eles deixarão de ser só nossos, rapidamente.
Enquanto cabem nos nossos colos e correm ao encontro dos nossos abraços, que possamos levantar a cada tombo que a maternidade nos derrubar e nos reerguer por eles. Como aconteceu comigo, caso você, em algum momento, não se reconheça como a mãe do seu manual, não se desespere. Estará diante de uma grande oportunidade de crescimento e de aprendizado, e você vai sobreviver a isso. O que não pode faltar para os nossos filhos são os beijos de boa noite, o colo após a queda, a paciência na hora de ensinar o dever, a jantinha quentinha, após o banho demorado, e o abraço largo, aconchegante e protetor, para que eles nunca duvidem de que somos o porto seguro, e o seremos sempre, mesmo após a tempestade. Excesso de amor e sem manual.

() GABRIELA GOMES é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia