Cotidiano
31 de agosto de 2018

Caridade ambulante

Quando nos deparamos com ambulantes vendendo seus produtos pelas ruas da cidade não imaginamos a história por traz de cada pessoa. Alguns julgam como pessoas sem serviço, que querem vender sem pagar aluguel ou impostos. Outros não confiam na origem da mercadoria, ou no seu prazo de validade. Alguns gostam, aprovam e são fregueses assíduos. Outros compram apenas por ‘caridade’.
Há muita coisa escondida em cada um deles. Muitas histórias de superação, de luta, de trabalho duro. Como a de dona Maria, idosa, que vende abacates na avenida. Ela fica encolhida na calçada, com sua cesta de abacates, e seu lenço extremamente branco sobre os cabelos grisalhos. Ela nunca estudou e sabe apenas escrever o nome. Não se aposentou porque nunca teve carteira assinada. Sempre trabalhou na roça, ou em casa de família.
Dona Maria foi casada mas o marido morreu novo, por conta de uma ‘doença ruim’, como ela mesmo explica. Ela criou seus 4 filhos trabalhando de sol a sol, com muito pouco e às vezes, com quase nada. Eles cresceram, se casaram e, hoje, ela mora sozinha. A sua cesta de abacates é uma das suas formas de renda, e o seu olhar não consegue descrever isso.
Poucos minutos de conversa com dona Maria são ensinamentos incalculáveis. Ela não reclama, não lamenta, e se orgulha de cada dor e sofrimento que superou. Deixa bem claro o quanto é feliz.
Assim como dona Maria, tantos outros ambulantes estão lutando para vencer mais um dia. Vencer o desemprego, as contas, a situação precária da família, o sustento dos filhos, os remédios para o pai idoso... são tantas histórias detrás daqueles olhares, impossíveis de descrever.
A caridade não se resume a uma sacola de roupas para doação ou uma cesta básica para os que não têm o que comer. Essas ações têm muito valor, mas a doação vai além disso. A caridade está nos pequenos gestos, nas delicadezas diárias, na paciência com o outro. Está no olhar para a dona Maria, e no respeito ao seu trabalho honesto. Está no consolo ao vizinho João, ou no abraço ao amigo aflito.
Nos nossos lares, a caridade se reflete nos desafios de todo dia. Após o cansado dia de trabalho ou estudo, ainda precisamos ser pacientes com os nossos, pois certamente são os que mais amamos. Ouvir as reclamações repetidas dos pais, a carência infinita dos filhos, os casos do trabalho do marido, as lamentações dos irmãos, a história já contada mil vezes pela avó.
É dentro do lar que nos revelamos como realmente somos. Ali não há protocolos ou regras, horários ou uniformes, apenas nós e os nossos. E infelizmente é no lar que revelamos nosso lado mais difícil e menos bonito.
Mas é no lar que construímos laços eternos, que colecionamos lembranças e escrevemos a nossa história. Que tenhamos a sabedoria da dona Maria, que mesmo diante de tão pouco recurso e enormes dificuldades pelo caminho, se afirma feliz, com sua cesta de abacates.

() Gabriela gomes é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia