Ponto e Vírgula
24 de agosto de 2018

Nada é o que parece ser

No excelente livro “Sapiens – Uma breve História da Humanidade”, do israelense Yuval Noah Harari, está explicado que a capacidade de criar narrativas foi um dos fatores determinantes para a perpetuação da espécie e superação do Homo Sapiens frente às demais de outros “homos” que coexistiram em um passado longínquo. Não é que os ancestrais que iniciaram a povoação do mundo fossem escritores ou contadores de causos. Mas a criação de mitos, religiões, políticas, cultos e rituais, incutiu na nossa espécie, uma importante relação de respeito com o que não é palpável, mas que é fundamental em nossa convivência: Leis, poder aquisitivo, regras sociais, valores e tradições.
Em nossa selva do século XXI, imersa no “pós-tudo”, estamos cada vez mais dependentes das narrativas impalpáveis que criamos. Redes sociais, cartões de crédito, e-commerce, aplicativos para as mais diversas atividades, nos tiram a cada dia, do “mundo real”. Aliás, existe mundo e alguma realidade?
E de pensar que o que fazemos hoje com os olhos pregados num smartphone, não é nada diferente daquilo que as tribos de sapiens faziam há milhares de anos. Trocar experiências, seguir ou inventar novas tendências comportamentais em troca de interação, entretenimento e necessidade de compreensão do universo.
Saber das últimas do Japão, ouvir sucessos da cantora sueca preferida, ler uma resenha ou uma notícia sobre o que se passa na China em 2018 é o mesmo que os antigos antepassados faziam para se organizar e tentar compreender os mistérios do universo. A vida sempre foi movida por buscas de respostas.
E nunca essas estiveram tão provocativamente inalcançáveis. E o que diferencia os sapiens do século XXI é o mesmo que diferenciava os sapiens de 150 mil anos atrás: o envolvimento de cada um com o desejo de novas descobertas. Sempre haverá os insatisfeitos com a realidade, os inquietos de pensamento, aqueles que buscam o além do que se vê, famintos por entender o que se passa a seu redor, ou inventando o futuro. Do mesmo jeito, sempre existirá os que pouco se importam e que só se preocupam em comer quando estão famintos por comida apenas.
Os “mitos” foram criados para garantir a ordem, para normatizar o que não tem juízo, juízo ou que não faz sentido. Mas sem esses, dificilmente estaríamos aqui, preocupados com o futuro que nós mesmos estamos criando, quais compromissos estamos fazendo e, principalmente, qual rota seguiremos. Viver não é só tentar emagrecer e pagar conta. Viver é interpretar, entender ou até mesmo ignorar as narrativas que marcam a nossa existência. Mas, quem realmente somos, e determina o que seremos, são aqueles que nos olham nos olhos quando estamos diante do espelho. Afinal, “dentro de nós há uma coisa que não tem nome. Essa coisa é o que somos”. Como bem definiu José Saramago. E, somos o que mesmo? Nada na verdade é o que parece ser.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação