Olhares
10 de agosto de 2018

O saco do morto

() Remisson Aniceto Interino

Durante treze anos o veterinário Roberto Assakawa foi o médico que cuidou da pequena Cherry, a cadela Poodle da minha família. Sempre que estava em nossa casa, ele nos falava sobre as curiosidades da sua profissão. Um dia, levou o corpo de um pequenino cão para cremar, a pedido da inconsolável dona, e escondeu o cadáver em um saco de supermercado no banco de trás do carro. Deixou o veículo estacionado à frente de uma farmácia por alguns minutos e, quando retornou, o automóvel estava com a porta arrombada e o saco com o corpinho do cão havia desaparecido. Roberto ficou pensando qual explicação daria à sua cliente. O ladrão provavelmente pensou que aquele saco de supermercado continha doces, biscoitos e outras guloseimas. O médico riu, como se adivinhasse a expressão de surpresa e desapontamento do gatuno quando abrisse o saco. Roberto não teve outra escolha a não ser contar a verdade à dona do animal morto, pedir-lhe desculpas e devolver o dinheiro pago pela cremação que não ocorreu.
Quanto à nossa querida Cherry, ela morreu já idosa, com quatorze anos, por conta de um infarto. Ela que como eu (que dificilmente viverei o tempo equivalente ao que ela viveu), tomava diversos medicamentos todos os dias, quando começou a sentir fortes dores, não conseguiu esperar a chegada do veterinário. Então, solicitamos ao médico que cremasse o seu corpinho de pelos alvíssimos como a neve. Ninguém nos furtou este desejo. Foi um grande sofrimento para todos nós, especialmente para o meu filho Bruno, então adolescente, mas que ainda era bebê quando recebemos a Cherry em casa, uma macia bolinha de pelos brancos com poucos dias de vida. Isto foi em 9 de abril de 2008, mês em que também fomos abalados, porém levemente, com a notícia de um pequeno terremoto em São Paulo.
Cherry tinha o gênio forte, irascível mesmo. Precisávamos ficar atentos às suas mudanças constantes de humor, temendo que ela pudesse nos morder ou atacar as visitas a qualquer momento. Quando foi mãe, tivemos que doar, com dor no coração — porém não tanto quanto ela —, todos os seus cinco filhotes, pois não havia como abrigar a ninhada inteira no pequeno apartamento. Ela demorou para se recuperar, se é que algum dia isto aconteceu. Imaginem como deve ser doloroso para uma mãe ver-se inesperada e definitivamente apartada das suas crias... Hoje, temos a prazerosa e necessária companhia de outra cadela, a Cacau (nome escolhido por minha neta Amanda, que a adora). Ela é da raça Bull Terrier e tem os pelos verde-acinzentados, quase marrons, a cor do fruto que foi a inspiração para batizá-la. Completamente diferente da Cherry, Cacau é forte, robusta, estabanada, porém carinhosa, carente, brincalhona, de uma docilidade que contrasta com o seu porte e a sua aparência. Dizemos que ela tem comportamentos de cachorro louco: de repente, sai em disparada pelo apartamento inteiro, chocando-se com estrondo nas paredes, nas portas, derrubando o que estiver pelo caminho, numa forma de nos demonstrar a sua alegria às vezes fica imóvel por vários minutos olhando fixamente para seu prato de ração, como se esperasse ver ali um suculento pedaço de frango cozido, alimento pelo qual ela até chora ao sentir o cheiro outras vezes, dá círculos e mais círculos muito vagarosamente, em câmera lentíssima, pelo vaso de plantas, como se estivesse hipnotizada, ou posta-se em posição de ataque, com as ancas erguidas e a cabeça rente ao chão, como se espreitasse a vítima (nós), preparando-se para o bote. De súbito ela salta e nos lambe a boca, os olhos, as orelhas... Somos, todos lá em casa, completamente apaixonados por ela, que retribui a todo momento, feliz e desinteressada, brusca ou delicadamente esta paixão.

() Remisson Aniceto é articulista, contista, cronista e poeta nascido em Nova Era (MG)