Cotidiano
3 de agosto de 2018

Invasor digital

Hoje em dia, temos uma companhia constante, diária, que toma conta do nosso tempo, dos nossos olhos e domina a nossa atenção. Seja em casa, no trabalho, na reunião com os amigos e até mesmo na hora das refeições.
Impacientes, eles apitam sem parar, acendem, vibram, exigem atenção imediata. E nós, falíveis e mortais, aos poucos, fomos dominados por essa necessidade, antes inexistente. Os celulares dominaram o mundo, dominaram nossa vida, nosso tempo, nossa família. Sua utilidade inicial, de comunicação, já foi ultrapassada, e hoje, ele faz parte da nossa rotina.
A modernidade dos aparelhos e seus infinitos aplicativos trouxeram sim muitas coisas úteis e saudáveis para o nosso dia a dia. A comunicação ficou instantânea, inclusive visual. Antes os aparelhos transmitiam apenas a voz, depois vieram as fotos, e hoje são lives e vídeos infinitos. Não se surpreenda se em breve eles transmitirem perfumes e sensações térmicas.
Esse invasor digital tem ultrapassado limites cotidianos. Em casa, ele rouba os poucos minutos que os pais dispunham para os filhos. E isso é extremamente prejudicial para ambos os lados. Enquanto as crianças são educadas por desenhos na TV, joguinhos ilimitados e aplicativos quase humanos, os pais respondem as milhares de mensagens, trocam likes e curtem fotos.
A infância é o maior baú de memórias que carregamos. Os nascidos antes da explosão digital, certamente, guardam fotos, poemas escritos em guardanapos, brinquedos de madeira e muitas lembranças de brincadeiras na rua, com a turma. O contato, as risadas compartilhadas e as alegrias vividas estarão sempre dentro de nós. Poucas crianças, hoje, conhecem o sabor dessa infância. Estão preocupadas demais em passar para a próxima fase do jogo ou não perder o episódio da série favorita.
As rodas de amigos também mudaram muito. A preocupação em tirar uma foto perfeita supera a vontade de jogar conversa fora, de contar a última trapalhada, a conquista recente. Os olhos estão fixos nos aparelhos, e quando um amigo começa a falar, muitas vezes não é ouvido, pela falta de educação digital dos demais. Em alguns bares, já há programas para se deixar os celulares na portaria, para estimular a conversa entre as pessoas. Não precisávamos chegar a esse ponto.
Também surgiram repórteres e juízes, munidos de um aparelho celular. Boa parte se considera repórter ao fotografar o acidente, a queda, o furto, ao invés de prestar socorro a vítima. Os grupos dos aplicativos e as redes sociais se tornaram tribunais, onde cada um se considera juiz do outro, e julga impiedosamente suas ações ali divulgadas. As mentiras repostadas são um grande perigo, pois podem causar prejuízos irreparáveis.
Esse invasor digital pode sim ser nosso grande amigo, mas os limites precisam ser respeitados. Nunca um like será mais importante que um abraço, nunca postar uma foto linda do seu filho será mais importante do que dar atenção a ele, nunca as redes sociais terão mais importância do que as suas conversas presenciais com seus grandes amigos. Os valores podem estar perdidos, mas as pessoas nunca estarão. Sempre há tempo de mudanças, a começar por hoje.

() Gabriela Gomes é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia