Cotidiano
6 de julho de 2018

Filho casca de ovo

Todo filho é casca de ovo. Frágil, delicado, vive exposto a muitos riscos e necessita de cuidados intensos. Nós, pais, não podemos protegê-los do mundo e de seus infinitos perigos, isso é humanamente impossível.
Ainda na barriga, ficamos apreensivos quando estão quietos ou passam a se movimentar mais devagar. Quando nascem, temos medo dos engasgos, da friagem na hora do banho, da desafiadora amamentação. Começam a andar, os perigos se multiplicam. Caem, ralam os joelhos, os cotovelos, até no nariz, vez por outra, aparece uma cicatriz.
Eles vão crescendo e os medos crescem junto. Não há limites e muito menos previsões.
Evitar que o filho viva experiências externas é como engaiolar a criança para o mundo. Não diminua a alegria da brincadeira para que ele não se suje as manchas de comida (infelizmente) vão aparecer no sofá as roupas aparecerão rasgadas e o chinelo teima em não ficar no pé. Os brinquedos espalhados pela casa trazem a alegria da infância, o sorvete lambuzado tem um sabor especial e a velha e boa rede da varanda se transforma em um navio de pirata. A bagunça é uma constância, parece não ter fim, mas fique sabendo que um dia até disso você vai sentir saudades.
Não proíba que ele veja o jogo do Brasil na escola, para que ele não corra riscos deixe que ele jogue bola com os amigos, brinque na terra e na grama, se suje de lama do sitio da tia, e até mesmo que corra atrás das galinhas do quintal da vovó. As lembranças desses momentos são eternas. E os riscos também serão.
Sim, os filhos são imprevisíveis. Acidentes podem ser evitados, e temos que estar atentos sempre. Mas a vida passa, a infância passa, os amigos se vão, os melhores anos da idade escolar também, e isso é definitivo. Daqui a pouco eles estarão como nós, pagando infinitos boletos, e contando os dias para o final de semana. Sem tempo, com muita pressa e sempre atrasados para os compromissos. Enquanto podem, permita que eles não sejam vitimas desse imediatismo que domina a vida adulta. O tempo, na infância, passa mais devagar.
É difícil abrir as asas, eu sei. Deixar que eles andem com as próprias pernas, deixar que escolham a própria roupa ou o lanche da escola, deixar que sigam pelo caminho escolhido por eles. É difícil perceber que a musica preferida deles até te arrepia, que você nunca usaria aquela cor de cabelo, muito menos tantos rasgos na calça jeans.
Filhos são casca de ovo, recheados de possibilidades e riscos. Precisam de orientação, ensinamentos e o mais importante, bons exemplos. Eles vão seguir os seus passos, a sua estrada. Lá na frente você vai se orgulhar em ter deixado ele se sujar de lama, de ter incentivado que ele lesse aquele livro, que subisse na árvore para colher laranjas. Eles serão melhores por isso e por todas as portas que você os encorajou a abrir. E de longe, da platéia, você vai se orgulhar e ver que aquela frágil casca de ovo é mais forte do que aparentava.

() Gabriela Gomes é publicitária e responsável pelo setor comercial do jornal A Notícia