Ponto e Vírgula
22 de junho de 2018

O Pará é pai d’égua

Visitei Belém, capital do Pará, na semana passada, após anos de convites insistentes do meu primo, Rogério Novais. Ele, casado com a paraense Anita Novais, deixou João Monlevade, sua terra natal e está há 34 anos na “cidade das mangueiras”. Pela primeira vez, estive na região norte do Brasil e me deparei com uma incrível e diferente realidade. O Pará é exótico, quente, úmido e com uma infinidade de belezas naturais e riquezas culturais.
A culinária mescla paladares indígenas aos portugueses. Além da abundância de rios de onde não se vê a outra margem, há muitas frutas típicas como cupuaçu, bacuri, taperebá, uxi, tucumã, entre tantas outras, que dão colorido, sabor e saúde. E, claro, o açaí, presente no dia a dia do paraense.
Não se visita o Pará sem tomar açaí de verdade. Não se trata do produto que aqui chega, após a adição de guaraná, açúcares e outras guloseimas. O açaí do paraense é tomado com farinha d’água, acompanhado de peixe frito, frango ou charque. E é uma refeição porque tranquilamente pode substituir um almoço. Ali, come-se de tudo o que a natureza oferece em demasia. Peixes, camarões e crustáceos de várias espécies, de rio e do mar e de todos os tamanhos. No tradicional Mercado do Ver o Peso, a negociação de peixes começa ainda de madrugada com a chegada dos barcos à doca. É uma experiência única escolher um filhote, uma dourada, uma pescada ou corvina, entre outros tantos, no meio do “pitiú”, que é o cheiro forte dos peixes fresquíssimos.
O sotaque paraense tem um “s” chiado, mais carregado que o dos cariocas. Herança portuguesa. Outra marca de Portugal na língua é o uso da segunda pessoa. Não se ouve “você” em Belém. Apenas tu e ti, devidamente conjugados. Além da força vocabular, o paraense tem expressões características. “Égua” é uma interjeição comum. E serve para expressar espanto, alegria ou lamento. “Égua da chuva”, “Égua do calor” ou simplesmente “Égua”. Para perguntar as horas eles perguntam: “Que horas tens?”. É comum ouvir o paraense chamar o desconhecido da rua ou vendedor de parente. “Fala parente, quanto é teu peixe?”. E quando algo é extraordinário, é incrível ou surpreendente, é “pai d’égua”.
O paraense gosta de rede. Não para dormir, mas para cochilar. Gosta de casa cheia de amigos e familiares. Diferentemente dos mineiros, que comem quieto e quase não falam de seus planos, o paraense conta tudo, antes mesmo deles acontecerem e os amigos ficam na torcida. Lá, quase nada fica em segredo. São abertos e gentis. Receptivos e felizes.
Outro aspecto forte é a musicalidade. O “brega” é ritmo mais popular e o mais dançante. Ainda há o caribó, que todo paraense dança e que foi ampliado para o mundo pelo cantor e compositor Pinduca. Há ainda o calypso, não a ex-banda de Joelma e Chimbinha, mas o ritmo caribenho que toca sempre na noite. Outro som típico do Pará são as guitarradas. Som instrumental que tem a guitarra exercendo papel principal e o protagonismo nas canções. Isso, sem falar nas aparelhagens, que reúne milhares de pessoas em bailes embalados por Djs.
O Brasil é muito rico, muito bonito e vale muito a pena ser conhecido. E o Pará também. Sobretudo Belém. É preciso deixar de lado qualquer tipo de preconceito para mergulhar nesse universo soberbo de sabores, cores e sentidos. Diz o dito popular que, “quem vai ao Pará e toma tacacá não quer mais voltar”. E é verdade. O Pará é pai d’égua.

() Erivelton Braz é editor do A Notícia e fundador da Rotha Assessoria em Comunicação