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Geral
26 de Junho de 2020
Mulheres organizam coletivo contra o racismo e valorização dos negros
Fala das Imagens
Cena de uma das performances do grupo Salve Pretitude
Valorizar a herança cultural africana no Brasil e lutar contra o racismo escancarado que se tornou natural no Brasil. Esta é a missão do grupo “Salve Pretitude”, lançado por nove mulheres negras em João Monlevade, Mariana e Belo Horizonte. As ativistas, Andréa Abade, Júnia Alexandrino, Júlia Camilo, Débora Carolino, Alexsandra Mara, Ramínie Moreira, Ana da Mata, Sara Oliveira e Sthepanie Reis se juntaram na luta contra a opressão, sobretudo, às mulheres negras. Elas consideram que o racismo está em toda parte no país, escancarado, e de tão naturalizado, acaba acontecendo o seu não reconhecimento.

Segundo Débora Carolino, a ideia do grupo partiu de uma conversa entre ela e Andréa Abade. “Foi uma junção de ideias e vontades adormecidas que despertou em decorrência de toda movimentação antirracista que vem acontecendo mundialmente”, conta.

Através do Instagram @salvepretitude, elas postam imagens de negros relevantes para a História, além de mensagens que criticam comportamentos racistas. Chama a atenção a estética das imagens, sempre com cores marcantes, entremeadas de conteúdos de valorização da cultura afro-brasileira. No YouTube, em parceria com a empresa Fala das Imagens, o coletivo lançou uma performance do poema Ainda Assim Eu Me Levanto, da premiada poetisa norte-americana Maya Angelou. Ela foi porta-voz dos anseios e da revolta dos negros, amiga de Martin Luther King e de Malcolm X e a vida inteira dedicou-se à militância pelos direitos civis de seu povo. “O poema de Maya Angelou nos fortalece. Ele nos lembra de todos os desafios que nos rodeiam a cada dia e, ainda assim, nos levantamos. Somos resistência! E por onde passamos, levamos arte, cultura, verdade, vivacidade, acolhimento, alegrias e amor. Sendo assim, que nossa voz ecoe aos quatro cantos da terra. Viva nossa Pretitude!”, afirma Andréa Abade.

Com versos como “Você pode me riscar da História/ Com mentiras lançadas ao ar./ Pode me jogar contra o chão de terra,/ Mas ainda assim,/ como a poeira, eu vou me levantar”, as ativistas reforçam a luta contra a violência sofrida pelos negros. O vídeo pode ser acessado nas redes sociais do grupo.

Nas últimas semanas, o tema racismo voltou a emergir na pauta dos noticiários. A morte do segurança desempregado George Floyd, assassinado por um policial branco nos Estados Unidos, suscitou uma onda de protestos naquele país.

Resistência

As integrantes do coletivo concederam uma entrevista ao blog “Nota Preta”, do jornalista, poeta e escritor Wir Caetano, militante da causa afro-brasileira. Na opinião delas, as ações do Estado para coibir práticas de cunho discriminatório ainda são insuficientes: “após séculos e décadas de muita luta, hoje temos mais amparo no que diz respeito aos direitos e conquistas, se é que podemos chamar de conquistas, sendo que é dever do Estado minimizar o sofrimento e as mazelas que incidem sobre a população negra. Estão faltando ações mais efetivas”.

Na opinião das integrantes do “Salve Pretitude”, muito se fala e se planeja nas mesas da administração pública, mas pouco entra efetivamente em vigor: “Por exemplo, a maioria dos órgãos trabalha no máximo com projetos, mas não ousa desenhar nas políticas o combate às desigualdades raciais. A política governamental apresenta ações que influenciam na vida da população negra, mas essas ações precisam gerar mudanças que possam ser objetivamente observadas”.

Luta de Mulheres

O “Salve Pretitude” é integralmente composto por mulheres, o que dá visibilidade, além do combate à discriminação racial, à valorização do feminino na sociedade brasileira. Para elas, os problemas advindos da cor e do sexo se conjugam nelas: “Hoje, enfrentamos vários problemas que assolam as mulheres negras, entre eles, o machismo que violenta, o racismo que constrange, oprime e exclui, entre outros. E nosso cotidiano é enfrentar os dois juntos. A força, então (e isso nunca nos ensinaram), está na mistura”, afirmam.

Nos últimos anos, o dia 20 de novembro tem sido comemorado como Dia da Consciência Negra. Nesse dia, em 1695, Zumbi dos Palmares foi capturado e morto após o quilombo que liderava ser destruído pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. As integrantes do grupo exaltam a memória de Zumbi, o maior representante do movimento negro de todos os tempos: “O Quilombo dos Palmares foi a possibilidade de uma construção de uma República efetiva que sustentou uma ideia de liberdade, onde as pessoas poderiam viver. A Consciência Negra precisa ser acordada todos os dias para uma efetiva transformação”, opinam. Confiram os trabalhos do grupo no Instagram @salvepretitude.

(Com informações do blog Nota Preta: https://notapreta.home.blog/).