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22 de Maio de 2020
Muita gente, pouco espaço
Por Wir Caetano/Dabliê

blog: Nota Preta (https://notapreta.home.blog)

Densidade demográfica de João Monlevade é a mais alta do Médio Piracicaba; peso desse fator em tornar um município mais vulnerável à disseminação do coronavírus foi objeto de estudo que abrange todo o país



João Monlevade, habitada por cerca de 79.900 pessoas (segundo estimativa do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – para 2019), ocupa atualmente o segundo lugar em número de casos confirmados da Covid-19 no Médio Piracicaba: 33 até o fechamento desta matéria. A cidade liderava a lista de ocorrências até quarta-feira (20), quando foi ultrapassada por Itabira, cidade mais populosa da região (120.060 habitantes), com 44 confirmações da doença. Confrontada com a necessidade de distanciamento social, chama atenção uma característica monlevadense: a alta densidade demográfica (relação população/área territorial).

Com um índice superior a 700 habitantes por km2, Monlevade contrasta com os demais 24 municípios que integram a Gerência Regional de Saúde de Itabira: o segundo lugar em densidade, entre esses cidades, fica com Guanhães (população de 34.319), em que esse índice é de 98,5 km/hab, enquanto em Itabira é de 87,57.

Um estudo do geógrafo e cientista de dados Ronnie Aldrin Silva, publicado em boletim bimestral da Fundação Perseu Abramo, de São Paulo, na edição de março/abril, analisa o papel da densidade demográfica no grau de vulnerabilidade dos 5570 municípios brasileiros ao coronavírus, com base em 18 informações distintas.

A abordagem, no entanto, cruza essa informação com outros indicadores, como faixa etária predominante, infraestrutura sanitária, sistema de saúde, além do mercado de trabalho (com maior ou menor grau de informalidade). Esse cruzamento de fatores – embora a densidade receba peso três vezes maior do que os demais – contribui para que o índice de vulnerabilidade seja maior ou menor na classificação apurada por Silva.

Assim, embora João Monlevade tenha uma densidade populacional muito superior à de Itabira, o estudo classifica o município itabirano como portador de maior fragilidade. O geógrafo explicou ao NOTA PRETA que dados do Censo de 2010 apontavam em Itabira um percentual de 3% de favelização (que implica aglomerações residenciais), o que não ocorria em Monlevade, além de um sistema de saúde mais deficiente.

Esses são aspectos que fizeram com que, em sua tabela de fragilidades, com uma escala de valores de 0 a 1, o índice itabirano tenha ficado em 0,6237, enquanto o monlevadense seja de 0,8055 – quanto mais perto de zero, pior o resultado.

Silva explica, porém, que o estudo não objetiva “fazer projeções do número de contaminados”. As ocorrências reais, lembra ele, dependem também das políticas protetivas adotadas e do comportamento da população. A análise, segundo o geógrafo, pretende contribuir para que gestores possam buscar estratégias de ação adequadas para minimizar os riscos de disseminação da enfermidade.

Adensamento

populacional

A preocupação com a questão da densidade demográfica vai muito além dos limites regionais ou nacionais. Pesquisa do Instituto norte-americano Harris Poll mostra que, em consequência da pandemia, um terço da população dos EUA, principalmente na faixa etária entre 18 e 35 anos, manifesta o desejo de se mudar para localidades menos movimentadas.

Mas densidade é uma média matemática que traduz a relação entre população e área territorial, mas não expressa como os habitantes estão de fato distribuídos em um local.

O modo como as pessoas se distribuem no território é que representa maior ou menor adensamento populacional (o nível de concentração humana nos espaços territoriais). Essa distribuição está vinculada à localização das edificações, atividades industriais, comerciais e serviços.

Mas mesmo quanto ao adensamento populacional não há consenso a respeito de efeitos negativos ou positivos para as cidades. Reportagem da CNN aponta que a especialista Sara Carr, da Universidade de Northeastern, por exemplo, considera que “a densidade viabiliza os sistemas de transporte de massa, melhora o acesso a instalações públicas (incluindo hospitais) e promove a inovação e a criatividade”.

Problema

Questionada pelo NOTA PRETA sobre desafios da densidade demográfica, a Secretaria Municipal de Planejamento de João Monlevade afirmou que a cidade, além de ter “uma extensão territorial muito reduzida”, tem 50% dessa área caracterizada como zona de preservação, as quais não podem ser ocupadas conforme previsão no Plano Diretor, em virtude da declividade acentuada do terreno (acima de 45%) e da vegetação nativa de Mata Atlântica (Reserva Particular do Patrimônio Natural)”.

A Secretaria disse também que “outro fator importante é a inexistência de grandes áreas para expansão urbana, ou seja, poucos vazios urbanos para futuras ocupações”, o que contribui para o adensamento populacional.

Ao lado dessas questões, segundo o órgão, “o Município possui índices de urbanização superiores a 90%, sem existência de favelas ou similares, bem como inexistência de área rural para atividades agropastoris, fatores também preponderantes para aumentar o coeficiente de densidade demográfica”.