Geral
5 de novembro de 2018

Três anos da tragédia de Mariana - “A morte do meu irmão é uma dor muito difícil de ser superada”

Divulgação/ Leandro Couri/EM/D.A Press
O monlevadense Silênio, morto na tragédia de Mariana e as ruínas do município de Bento Rodrigues

O dia 5 de novembro é um dia de dor e de saudade para toda a família do monlevadense Sileno Narkievicius de Lima, morto aos 46 anos na tragédia de Mariana. Três anos após o rompimento da barragem de Fundão, que matou 19 pessoas e é considerado o maior desastre ambiental do país, a memória dolorosa do episódio é difícil de ser apagada pelos familiares.
A irmã de Silêno, Silvana Helena de Lima, não se esquece da última conversa que teve com o irmão. “Estávamos na casa da minha mãe e ele disse que onde trabalhava era muito perigoso, apesar da experiência com caminhão fora de estrada em minas diversas, ele falou que nunca tinha visto um local como aquele. Minha mãe disse: filho, venha embora. E ele falou que precisava trabalhar porque é muito triste ser homem e não ter trabalho. Meu irmão tinha ficado seis meses desempregado e tinha esperanças de melhorias. Inclusive, ele falou que estava marcada uma reunião entre a empresa e os funcionários para tratar de segurança e melhorias, justamente, naquela quinta-feira (5), dia da tragédia”, relembra.
Silvana relembra que esteve no local para buscar notícias do irmão desaparecido e que foi muito mal tratada por engenheiros e funcionários. Ela conta que brigou pelo direito de enterrar o irmão e que não se intimidou com “insultos recebidos pelos diretores da empresa. Tanto que, de acordo com ela, o corpo de Silêno foi um dos primeiros a ser resgatado”, conta. Ele foi localizado por um helicóptero após a lama ter secado, no domingo 8 de novembro de 2015. Silêno foi sepultado no dia 9, no Cemitério de Carneirinhos, em João Monlevade.
Para Silvana, os familiares ainda aguardam por justiça, já que ninguém foi preso e não pagaram pelas vidas que foram ceifadas. Ela diz que a mãe dela morreu tentando a justiça e sofreu muito com a perda do filho. “O meio ambiente foi prejudicado e, mesmo que demore anos, vai se recuperar. Meu irmão nunca mais vai voltar para a nossa casa, para a sua esposa e seus filhos. Mas eu creio na justiça divina e sei que Deus está olhando por nós”, disse Silvana, que é católica.
No domingo (4), na igreja Sagrado Coração de Jesus, a morte de Silêno e os três anos da tragédia de Mariana foram relembradas na Missa das 19h. Durante a celebração, Silvana entrou com uma cruz, com o nome do irmão e o pároco Marco José de Almeida rezou por todas as vítimas e também clamou por justiça.
Pesadelo continua
Mesmo após três anos, o rompimento da barragem do Fundão permanece sem resposta para as quase 500 mil pessoas atingidas entre Minas Gerais e o Espírito Santo. Segundo reportagem especial do jornal Estado de Minas, o pesadelo continua porque nada foi feito para reparar a tragédia.
Mesmo nas ações tidas como emergenciais, a reparação do local ainda não é completa. Segundo a Fundação Renova, 38 mil cadastros de atingidos foram feitos, sendo que 30.788 (79%) foram encaminhados para o Comitê Interfederativo (CIF), formado pelos governos nacional, de Minas Gerais e do Espírito Santo e seus órgãos ambientais. Os cadastros abrangem em torno de 80 mil pessoas. Em Mariana, foram realizadas 897 entrevistas de cadastramento e 371 vistorias nos imóveis, de um total de 526 propriedades estimadas.
Nem mesmo as famílias dos 19 mortos soterrados pelos 40 milhões de metros cúbicos (m³) de lama e rejeitos de minério de ferro receberam uma compensação financeira condizente com a perda.
Ainda de acordo com o jornal, a mineradora Samarco firmou acordo com 16 famílias, mas a empresa não revela os valores pagos a esses parentes de vítimas, sendo que, 14 deles trabalhavam no complexo minerário e outros cinco estavam no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana.