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Geral
12 de agosto de 2019
Reviravolta no julgamento de feminicídio
João Vítor Simão
Luciene (sentada, de costas) depõe em julgamento no Fórum Milton Campos.
Vítima isenta réu, conversa com testemunha e julgamento é suspenso
O primeiro julgamento por tentativa de feminicídio da história de João Monlevade não teve um desfecho. Os trabalhos da corte, conduzidos pelo juiz Rodrigo Braga Ramos, foram suspensos depois da vítima, Luciene Albertina Moreira Fortes, 40, ser vista conversando com uma testemunha. Isso foi entendido pela promotoria como coação e que essa testemunha teria sido plantada para favorecer o réu, Ronaldo Júnior de Coura Ramos, 27.

O crime teria acontecido no dia 8 de março de 2018. Luciene teria sido espancada por Ronaldo em uma briga na rua, no bairro Santa Cruz. Depois, ela foi levada ao Hospital Margarida e em seguida ao Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, onde ficou internada por dez dias, com hemorragia cerebral, escoriações nos braços, hematomas e uma mão fraturada.

Em depoimento à corte, Luciene defendeu Ronaldo das acusações de espancamento, e disse que, naquele dia, não havia se encontrado com o “namorado”. Ela atribuiu as marcas que tinha pelo corpo a quedas que sofreu por estar muito alcoolizada e sobre efeito de medicamentos para controlar a depressão. Segundo a própria Luciene, ela se embriaga com frequência, ficando muito agressiva. Ela confirmou que visita constantemente o réu no presídio de João Monlevade, que ele lhe faz muito bem e que a compreende em seus problemas. Ela pediu que o processo fosse encerrado e que Ronaldo fosse solto, para que os dois pudessem viver juntos. O juiz Rodrigo Braga Ramos questionou os depoimentos da vítima, já que ela afirmou que no momento da ocorrência a rua estava vazia, mas não soube precisar se era dia ou noite.

No entanto, uma irmã de Luciene confirmou que o relacionamento entre os dois era conturbado e que os dois tinham várias brigas. Durante uma festa de carnaval, ela teria presenciado Ronaldo desferir um tapa contra o rosto de Luciene. Ela disse ainda que o companheiro da irmã é um homem violento e temido pela vizinhança, e que já teria sido preso por roubar um deficiente em Bela Vista de Minas.

A testemunha que conversou com Luciene na audiência não foi ouvida durante o inquérito policial nem durante a primeira fase do processo. Por conta disto, a Polícia Civil deve abrir uma investigação para apurar se houve coação. Todas as testemunhas foram levadas à delegacia para esclarecimentos. O Ministério Público é contra a libertação de Ronaldo, que está preso preventivamente desde 16 de março de 2018, pedida pelo defensor público Marcelo Oliveira.