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Geral
12 de julho de 2019
Esperança para combater o vício
João Vitor
Membros da diretoria da Colônia Bom Samaritano em João Monlevade
Colônia Bom Samaritano e Santa Luiza de Marilac já ajudaram mais de 3 mil pessoas

Mundo afora, milhões de famílias vivem o drama de ter um parente viciado em drogas. Segundo dados de 2016, da Organização Mundial de Saúde, 5% da população mundial tem alguma dependência química, o que equivale a 271 milhões de pessoas. A indústria do vício é movida pelos grandes cartéis e pelos traficantes que distribuem o tóxico, muitas vezes, em plena luz do dia.
Em João Monlevade, no entanto, existe uma esperança para salvar quem está mundo das drogas: a Colônia Bom Samaritano. Localizada no bairro Laranjeiras, a instituição acolhe 35 homens, enquanto a sua ala feminina, a Colônia Santa Luiza de Marilac, atende a 15 mulheres. Abertas respectivamente em 1995 e 2000, e construídas após dez anos de trabalho em regime de mutirão, as colônias masculina e feminina já somam mais de três mil atendimentos.
Dentro das instituições, há várias placas com mensagens dirigidas aos dependentes em tratamento. A mais presente delas tornou-se um lema: “Só por hoje, evite a primeira dose”. Na colônia, os acolhidos (termo preferido pela diretoria) dispõe de horta, criação de porcos, cozinha comunitária, refeitório, sala para reuniões, sala de aula e dormitórios. O ambiente é arborizado e com muitos animais: há pássaros em um viveiro e alguns gatos.

Rotina

Ali, são ministradas aulas de alfabetização, informática, artesanato, costura e assistência espiritual, meditando sobre os Doze Passos de Sobriedade (veja quadro ao lado). Para possibilitar um tratamento completo, a instituição conta com psicólogo, psiquiatra, enfermeira e assistente social, além de voluntários.
O método utilizado na recuperação dos acolhidos é o tripé trabalho-disciplina-espiritualidade. Todos devem fazer as tarefas que lhes foram designadas: preparar a comida, lavar as roupas, limpar o chão, tratar a horta, cuidar dos animais. A cada semana, acontece um rodízio de atribuições. A recuperação leva nove meses, com possibilidade de prorrogação para até um ano. As colônias recebem apenas quem quer entrar na casa por livre e espontânea vontade, não admitindo internações compulsórias.



A fé é componente primordial para a recuperação. A colônia possui uma ampla capela, onde são realizadas celebrações religiosas. A Bíblia é um dos componentes do enxoval dos assistidos. Na fachada da instituição, está uma bela pintura representando a passagem bíblica do Bom Samaritano, que dá nome à colônia, que foi pintada pela artista e professora alvinopolense Alesandra Alves. A diretoria é ligada à Igreja Católica, mas há cultos e visitas de denominações evangélicas, e pessoas de qualquer religião podem ingressar na casa.
Uma vez por mês, os acolhidos recebem visitas de até quatro familiares por vez. Às quartas-feiras, é a vez da troca de cartas com as famílias. Estas recebem orientações para evitar assuntos que remetam à vida no mundo do vício. A troca de cartas é um dos momentos mais esperados, pois ligam o assistido ao mundo e o faz lembrar-se de que há pessoas que o amam.

Tratamento

O tratamento é totalmente gratuito para os acolhidos, e as duas colônias sobrevivem de doações da comunidade, além de convênios com prefeituras de João Monlevade, Bela Viste de Minas, Rio Piracicaba, Nova Era e Sem-Peixe. Não há restrição de idade, raça, condição socio-econômica ou região do país. Ali, há pessoas vindas de diversas regiões do país, e até uma norte-americana se tratou na Santa Luiza de Marilac.
Marinete Rodrigues, vice-presidente das colônias, conta que o perfil dos atendidos mudou bastante: “Antes, eram muitos moradores de rua. Hoje, temos pessoas com curso superior e que recebiam bons salários. Essa história de que são só pretos, pobres e favelados que usam tóxicos é mentira”, afirma. O álcool costuma ser a primeira droga experimentada por muitos, alguns ainda na infância.
Logo, abre-se a porta para o tabaco e as drogas ilícitas. A maconha e o crack são as mais comuns, mas as entidades recebem pessoas viciadas em ecstasy, LSD, metanfetaminas e outras drogas sintéticas. Marinete também afasta a crença corrente de que “traficantes não usam drogas”; muitos dos que vendem o narcótico também são consumidores.

Histórias

As colônias Bom Samaritano e Santa Luiza de Marilac colecionam histórias de pessoas libertas da escravidão das drogas. Apesar de seus diretores admitirem que a taxa de recuperação ainda não atingiu os níveis desejados, são muitos os que conseguiram abandonar as drogas com o tratamento da colônia. Um deles é Francisco da Costa Leite (nome fictício), que foi alcoólatra durante mais de trinta anos. Ele começou a beber ainda na adolescência, por curiosidade. Ele se casou, teve dois filhos e emprego, mas continuava usando álcool além da conta. Não gostava de bares, nem de bêbados, mas se embriagava sozinho em casa. Nos últimos dois anos, ele sucumbiu às garrafas; tinha mais de trinta em casa, e substituiu o café pelo álcool. Quando percebeu que a situação era insustentável, procurou a Colônia para se tratar. Está há um ano sem ingerir álcool.
José da Trindade Santos (nome fictício) começou a beber aos seis anos, pois o pai lhe dava pequenas doses de cachaça “para não aguar”. De todos os irmãos, era o único que bebia, o que, paradoxalmente, o aproximava do pai, que também bebia. Numa mesa de jogo, perdeu a casa em que morava com a família. Liberto do vício há 38 anos, é hoje membro da diretoria da Colônia Bom Samaritano. Tanto ele quanto Francisco Leite dão um conselho aos mais jovens: nunca experimentem, pois basta a primeira dose para tornar-se um dependente.

Ajuda

As doações feitas pela comunidade são as maiores fontes de recursos para as colônias. A diretoria da casa é unânime ao afirmar o quanto a entidade conquistou o respeito da população e se tornou uma referência em trabalho social feito pela sociedade civil. Eles falam que, mesmo enfrentando graves dificuldades, a ajuda da comunidade tem sido fundamental para manter o trabalho. Sobretudo, apontam, a Divina Providência tem sido o motor das colônias: “Quando nós passamos pelas situações mais complicadas, e pensamos que a casa teria que fechar, Deus nos ajudou e nos deu condições de continuar”.
Um dos pedidos da diretoria é de um convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil, já que muitos dos acolhidos têm problemas com a Justiça. A presidente da 75ª subseção da OAB, Larissa Santiago, mostrou-se aberta a uma parceria, porém o comparecimento em audiências, por exemplo, deve ser feito pessoalmente por advogados, e não pela ordem.
Moisés dos Anjos, presidente da Colônia, assinala que a instituição aceita todo tipo de doação: alimentos, roupas, materiais de limpeza e higiene pessoal, móveis e dinheiro. A casa também está aberta para voluntários que queiram prestar qualquer tipo de trabalho à instituição e a seus acolhidos. O secretário Geraldo Idelfonso Inácio, brinca: “Até injeção na testa nós aceitamos”.
A entidade planeja uma ampla reforma nas cozinhas e no refeitório, mas necessita de recursos para a obra, orçada em R$60 mil. Doações em qualquer valor podem ser feitas através da conta da Colônia na Caixa Econômica Federal, agência 0607, conta 13.488-2, operação 013.

OS DOZE PASSOS DA SOBRIEDADE


1. Admitimos que éramos impotentes perante o álcool e o tóxico - que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas.
2. Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade.
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos.
4. Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos.
5. Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas.
6. Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter.
7. Humildemente rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições.
8. Fizemos uma relação de todas as pessoas a quem tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados.
9. Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-las significasse prejudicá-las ou a outrem.
10. Continuamos fazendo o inventário pessoal e quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente.
11. Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade.
12. Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a estes Passos, procuramos transmitir esta mensagem aos alcoólicos e toxicômanos e praticar estes princípios em todas as nossas atividades