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Brasil e Mundo
24 de junho de 2019
Minas Gerais entra na era da cannabis medicinal
Reprodução
DO JORNAL O TEMPO

Regulamentação proposta pela Anvisa abre as portas do país e do Estado para investimentos em pesquisa, educação e plantio da erva para produção de diversos medicamentos

Na esteira da decisão da Anvisa de regulamentar o uso medicinal e científico de cannabis no Brasil, empresas, associações e pesquisadores mineiros se articulam de diferentes formas para poder cultivar a planta. Para eles, a medida representa saúde, conhecimento e mercado. “A gente vai começar a atuar no Brasil quando a regulação entrar em operação e vamos fazer o planejamento para ter nosso laboratório no país. E Minas Gerais, sem dúvida, está em nosso radar”, diz Gustavo Ziller, fundador da Green Med Brasil.

Ele é um empreendedor de longa data e criou empresas como o pub Duke ‘n’ Duke. Desde o início deste ano, está à frente de um negócio de medicamentos canábicos com outros quatro brasileiros. A Green Med Brasil é sediada em São Francisco, Califórnia, e manda manipular os remédios no Colorado, um dos Estados americanos com legislação favorável.

Os remédios são importados para o Brasil a partir de pedidos online em um site em português – um diferencial, segundo Ziller. A própria esposa e sogra do empresário precisam desse tipo de medicamento, antes comprado via sites estrangeiros. Hoje, a empresa tem cerca de 12 clientes fixos, mas vê espaço para expansão.

Desde 2015, 6.500 pessoas se cadastraram para solicitar à Anvisa autorização para importar medicamentos, a principal forma de ter acesso a eles no Brasil.

Levantamento da IQVIA Institute for Human Data Science prevê que fármacos derivados da cannabis poderiam beneficiar mais de 1,7 milhão de brasileiros diagnosticados com doenças como ansiedade e epilepsia. Esse número tornaria o país o maior consumidor da América Latina, onde a pesquisa fala que há 4,1 milhões de potenciais pacientes.

Relatório de 2017 publicado pelo The Green Hub, grupo de apoio a startups do ramo, estima que esse mercado tem potencial de movimentar até R$ 4,7 bilhões em três anos se a cannabis medicinal fosse comercializada no país para casos de dor crônica.

O grupo pretende oferecer bolsas de R$ 50 mil, semestralmente, para iniciativas no ramo. Marcelo De Vita Grecco, cofundador do projeto, diz ter sido contatado por pelo menos dois empreendimentos mineiros interessados no programa, que deve começar ainda neste ano.

Consulta pública

Empresas, associações e pacientes aguardam a regulamentação da Anvisa para dar os próximos passos. A consulta pública para definir os termos foi aberta na última sexta, dia 21, e qualquer cidadão pode opinar sobre as propostas da agência até o dia 19 de agosto. Gustavo Ziller, da Green Med Brasil, acredita que as regras do órgão favorecem as grandes corporações, como a Canopy Growth, gigante do segmento que abriu um escritório em São Paulo neste ano e anunciou, neste mês, investimento de R$ 65 milhões no país. “Se o que propuseram fosse para a indústria da cerveja, só a Ambev e a Heineken conseguiriam fazer a bebida no Brasil. Artesanais como a Wäls e a Küd não estariam no mercado”, afirma Ziller. O texto inicial da Anvisa prevê plantio exclusivamente em ambiente fechado (considerado mais caro, devido ao consumo de energia elétrica) e controle de entrada por biometria, por exemplo.

Para Ziller, é necessário adaptar a regulamentação às associações e às médias empresas. “Do jeito como a Anvisa propõe, o preço dos remédios vai continuar a mesma coisa”, diz. Sua empresa vende três tipos de óleo, que variam entre US$ 40 e US$ 120 (cerca de R$ 155 e R$ 466). Hoje, associações de pacientes falam em tratamentos que chegam a até R$ 3.800 por mês.