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Geral
12 de abril de 2019
A Notícia não tá nem aí pro Bolsonaro
Você, eu e todo mundo estamos de olho nos passos do Bolsonaro com a reforma da previdência. Quer dizer, todo mundo não. O capo di tutti capi, Dom Márcio Passos, para felicidade da Maria Cecília e do povo todo da redação, já pendurou as chuteiras, ou a máquina fotográfica, ou o bloquinho, sei lá...
Não é o caso desse “sujeito”: o jornal A Notícia, cujo nome, aliás, se mantém moderninho, nesses tempos de dúvidas quanto ao gênero. Afinal, é ele – o jornal – mas tem nome de ela. Mas isso não vem ao caso. O fato é que, mesmo depois de 35 anos de peleja, ele nem pensa em se aposentar. Então, continua firme em sua labuta, dando de ombros pro Bolsonaro.
E esse comportamento não é sem razão. Para concluir isso, basta uma análise bem rasteira – já que esse é o nível máximo que me permite minha parca inteligência - da história de Monlevade.
Com meus conhecimentos de historiador de botequim, andei pensando nisso e encontrei quatro grandes marcos no desenvolvimento social de Monlevade. Não falo aqui de desenvolvimento econômico, ou urbano. Falo de mudanças sociais, na cultura de um povo, no modo de pensar da sociedade, no entendimento daquilo que se vê como “normal”.
O primeiro foi, sem dúvida, a chegada da antiga Belgo-Mineira, hoje ArcelorMittal. Mudamos de vilarejo perdido no meio do mato para cidade moderna. O segundo foi a emancipação do município. Passamos a nos ver de outra forma, a andar pelas próprias pernas, a assumir posição de liderança em uma micro-região. Bem mais tarde, veio o quarto: o boom de crescimento da antiga Funcec, que repercutiu em nossas estruturas sociais, abriu mentes, mudou a configuração da cidade, impactando inclusive em políticas públicas e na estrutura econômica. Isso tudo até que as vontades não-republicanas de uma pesada pata de elefante quase desfizeram tudo.
Mas o escrevinhador idiota pulou o terceiro marco. Foi de propósito, pobre leitor que teve a coragem de vir comigo até este ponto do texto. Foi para deixar por último o homenageado do dia: esse sujeito teimoso e um pouco arrogante em que, com o passar dos anos, se transformou o jornal A Notícia.
Década de 80 e, de repente, Monlevade tinha uma das mais atuantes e influentes imprensas do interior mineiro. O fenômeno chegou a ser discutido em congressos da área. Chamou tanto a atenção nesse mercado que de uma hora para outra aportaram por aqui vários jornalistas e empresários e pseudo-empresários de fora. E como começou esse fenômeno em um mercado que até então tinha um ou dois veículos que não passavam de meros órgãos oficiosos do poder público? Começou em um quartinho de dois por três metros, na rua Brasília.
Eram tempos do jornalismo romântico, meio aventureiro, cheio de ideais. Mas ao mesmo tempo técnico e profissional. Um ambiente que descobriu, transformou e consolidou talentos, provocou novas produções, incentivou a melhoria da qualidade, levantou discussões, colocou o status quo em cheque.
Ter feito parte desse processo foi uma baita sorte. Uma escola inesquecível. Trabalhar e conviver com profissionais como Márcio Passos, Geraldo Magela, Marcelo Melo, Robson Carvalho, Cláudio Magalhães e tantos outros, assim como diz aquele comercial, não tem preço.
É claro que mais do que o aprendizado, nos lembramos dos causos engraçados, das piadas, das brincadeiras, dos perrengues com a velha Brasília caindo aos pedaços, mas também das ameaças, das agressões, das pressões, da dureza. Mas tudo isso pode ser tema de um livro e não caberia aqui.
O fato é que é uma baita história. Como não poderia deixar de ser, feita de acertos e erros, aventuras e certezas. Mas sempre de crescimento, olhando para cima e para a frente. E é por isso que o A Notícia não tá nem aí pro Bolsonaro. Ele sabe que novos 35 anos estão só começando.

() João Carlos de Oliveira Guimarães é ex-editor do A Notícia e funcionário da área de Humanas do grupo ArcelorMittal